por Edmir Perroti, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP
Em vez de meros depósitos de livros, bibliotecas públicas deveriam ser
plataformas de lançamento a novos conhecimentos
Nos anos 30 do último século, um grupo de intelectuais, liderado por
Mário de Andrade, sonhou um projeto cultural de envergadura para a cidade de
São Paulo: a criação de bibliotecas públicas, abertas à população em geral, em
vários pontos da cidade. A iniciativa foi – e, poderá continuar sendo, se retomada
em termos contemporâneos – contribuição fundamental à luta contra o
analfabetismo e o iletrismo que, lastimavelmente, marcam ainda hoje nossa cena
educacional e cultural.
Reconhecendo a importância de formar leitores, ou seja, o papel
educativo, cultural e socializador das bibliotecas, o grupo, além das dirigidas
para adultos, idealizou também a criação de uma rede voltada especificamente
para crianças e jovens, das quais a Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato,
criada em 1935, foi a primeira.
Tal movimento desembocou na criação da maior e mais complexa rede de
bibliotecas públicas do País, cujo apogeu durou desses anos iniciais até os 60,
quando a massificação começa a se impor como padrão dominante das políticas
públicas de educação e cultura no País. A partir dos anos 70 esse formidável
patrimônio cultural perde o rumo e até hoje, infelizmente, não conseguiu se
refazer nem sequer compreender o que lhe aconteceu e está acontecendo.
Quem, por exemplo, freqüentou a Biblioteca Monteiro Lobato em seu
período áureo, encontrou ali um ambiente estimulante e vivo, onde era possível
estar em contato com acervos diversificados e atualizados de periódicos e
livros, alguns, inclusive, em línguas estrangeiras. Além de importante centro
irradiador, a biblioteca “dos modernistas” era local de intensa produção e
intercâmbio simbólicos, de interações de importância essencial à inscrição dos
seus freqüentadores nas tramas da criação cultural.
Na Monteiro Lobato, além das atividades fundamentais de leitura, da Hora
do Conto, havia oficinas permanentes de criação literária, de artes plásticas,
de confecção de jornais; havia, também, cotidianamente, encenações teatrais,
debates, palestras, encontros com autores e muitas coisas mais. O jornal A Voz
da Infância fez história, na biblioteca. Muitas cabeças boas, que produziram e
até hoje produzem informação e cultura no País, publicaram seus primeiros
escritos ali.
Da mesma forma, criações teatrais do Teatro da Biblioteca Monteiro
Lobato (Timol) emocionaram e fizeram pensar milhares de crianças. Um ator e
diretor hoje conhecido de todos, Marcos Caruso, não só se formou nesse grupo,
como, depois de adulto, dirigiu-o por bastante tempo. Contemporânea da primeira
biblioteca infantil criada em Paris, em 1925, a Biblioteca Monteiro Lobato era
motivo de orgulho especial para aqueles que tinham oportunidade de
freqüentá-la. Suas realizações, suas dinâmicas, aliadas à imponência do novo
prédio que até hoje resiste, implantado nos anos 50 no Centro de São Paulo,
apontavam não só para a memória cultural da produção infanto-juvenil, mas para
o presente e o futuro. A Monteiro Lobato alimentava esperanças. A partir dela,
podíamos vislumbrar cidadãos capazes de tomar os destinos do País nas mãos.
Apropriação ou expropriação
Exemplo como esse nos permite chamar a atenção para a diferença existente entre
um mero depósito de livros e um ambiente efetivo de conhecimento e cultura.
Aqueles que tiveram a oportunidade de freqüentar a Lobato sabem que existem
diferenças fundamentais entre políticas públicas de democratização e políticas
de massificação cultural, entre práticas de apropriação e práticas de
expropriação simbólica, vigentes entre nós desde a colonização. As primeiras
acolhem, abraçam, abrem espaço, incentivam as trocas, o livre-intercâmbio de
idéias; as segundas banem, afugentam, excluem.
Para superar condições de mero entreposto e tornar-se espaço de cultura
vivo, dinâmico, atrativo, a biblioteca não pode simplesmente existir,
entregando ao acaso sua dinamização. É preciso atuar, agir, criar metodologias
e estratégias compatíveis com projetos históricos empenhados em reverter o
quadro de exclusão que sempre marcou a vida nacional; é preciso combinar opções
de políticas públicas inclusivas com práticas culturais da mesma natureza, criando-se
uma dinâmica entre macro e micro ações visando à participação e inclusão de
todos nos processos de conhecimento e cultura.
Ao mesmo tempo que uma biblioteca contemporânea deve ser aberta a novos
leitores (e também aos não leitores), é indispensável concebê-la, também, como
plataforma de lançamento, ponto de acesso dos diferentes públicos a circuitos
culturais amplos e diversificados. As bibliotecas devem ser como as estações,
ou seja, pontos de chegada e de partida em direção aos demais dispositivos
culturais da cidade, do País, do mundo. Em suma, trata-se de inserir os
sujeitos não apenas na biblioteca, mas nas ricas e intrincadas tramas
simbólicas de nosso tempo.
A qualidade e o compromisso público dos que nela trabalham também são
elementos centrais nas políticas de apropriação cultural. Sem compreensão do
papel fundamental que exercem, sem formação de base e continuada, compatível
com tal compreensão, sem interesse efetivo pelos bens simbólicos, dificilmente
esses profissionais serão percebidos ou se perceberão como protagonistas
culturais. Não há, pois, como deixar de considerar a qualidade essencial dos
mediadores. Em última análise, é no “aqui e agora” do concreto que os atos
culturais ganham sentido. Mediadores desmotivados, despreparados, desinteressados,
alheios às questões culturais gerais, bem como às dinâmicas singulares de seu
universo imediato, não estão em condições de atender às exigências feitas por
projetos destinados a reverter os caminhos excludentes da cultura no País.
Elo com a comunidade
O compromisso com uma biblioteca ativa, inventiva e participativa implica
também criação de vínculos fortes com o meio em que ela se encontra. Nesse
sentido, torna-se necessário não só levar a biblioteca à comunidade, mas também
trazer essa e sua memória, suas histórias, suas realizações significativas para
dentro da biblioteca. Uma instituição distante não cria elos fortes e
duradouros com seu público.
É preciso transitar pela cultura local, da mesma forma que pela
universal. É preciso buscar e coletar a memória da comunidade, registrá-la,
dar-lhe forma e sentido, recriá-la, disponibilizá-la sob diferentes formas,
como exposições, boletins, livros e álbuns fotográficos, tal como faz a Estação
Memória, projeto criado por nós, na USP, e implantado na Biblioteca
Infanto-Juvenil Álvaro Guerra, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A atenção
voltada à cultura local é contraponto necessário aos processos de globalização,
num movimento dinâmico e essencial de interpenetração entre o próximo e o distante,
o aqui e o lá, o “nosso” e o “do outro”.
A biblioteca contemporânea não pode aceitar o papel de entreposto de
signos que as políticas e práticas de expropriação cultural sempre adotaram e
continuam adotando. Deve, antes, estar antenada com as exigências de seu tempo
e momento, tal como preconizou, em sua época, o grupo de intelectuais ligado a
Mário de Andrade.
Assim consideradas, as bibliotecas herdadas dos “modernistas” poderão
ser redimensionadas, desempenhando novamente o papel cultural essencial do
passado. Não serão, em tais condições, dispositivos restritos a pequenos
grupos, pertencentes em geral às elites econômicas ou intelectuais. Serão, como
em várias partes do mundo e ao alcance de todos, recursos essenciais de
participação na cultura. Nossos modernistas, com certeza, estarão felizes se
tivermos a capacidade de reativar sonhos de inteligência e beleza na vida do
País.
12.11.09 –
11h25min

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