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No sertão de Minas, onde, em vez de jagunços lutando e matando por honra, amor e amizade, há traficantes e adolescentes destruídos pelo crack, um pescador, tentando sobreviver às conseqüências da poluição de um dos maiores e mais emblemáticos rios do país, montou uma biblioteca ambulante na feira de uma cidade sem livrarias. Em 11 meses, Léo do Peixe reuniu 8.000 volumes e cadastrou 348 leitores no seu Clube da Leitura, numa feira livre, em Pirapora, às margens do rio São Francisco.
Cinqüenta anos depois da publicação de "Grande Sertão: Veredas", a obra-prima de Guimarães Rosa, o projeto heróico e obstinado do pescador revela, pela exceção, a realidade de um sertão que já não permite nenhum idealismo.
Livros concorrem com revistas e gibis
Halexya Rodrigues Bavosa Pedais, 7, defende com altivez de rainha o título de primeira leitora da biblioteca ambulante que o pescador Leonardo da Piedade Diniz Filho, mais conhecido como Léo do Peixe, mantém desde fevereiro na feira livre de domingo, em Pirapora, no sertão mineiro, às margens do rio São Francisco.
"Com "h" e "y'", corrige Halexya, de botinha de plástico e minissaia. "Comecei lendo revistinha. Depois, passei para literatura mesmo: "A Odisséia" e "Pluft, o Fantasminha'", diz. Em março, a professoraDenise de Souza , há 20 anos ensinando na rede pública da cidade de 55 mil habitantes, cuja primeira livraria foi inaugurada há três meses, viu a faixa do Clube da Leitura ao lado da barraca de peixe, na feira. Doou alguns livros.
Um mês depois, procurou Léo do Peixe e o encorajou a se inscrever no prêmio Viva Leitura, promovido no Brasil pela Fundação Santillana, maior grupo editorial espanhol, ao qual pertencem as editoras Objetiva e Moderna. Dos 3.000 projetos inscritos, a barraca do Clube da Leitura ficou entre os cinco finalistas na categoria pessoa física (o vencedor foi um projeto de leitura para presidiárias em Porto Alegre).
Casado, pai de um menino de sete anos e de uma menina de quatro, pescador há 17 anos e profissional há cinco, Léo do Peixe, 40, inaugurou o Clube da Leitura com cem livros, motivado, em parte, pela perspectiva de ficar perto dos filhos, que poderiam se entreter enquanto o pai estivesse vendendo peixes na feira, aos domingos, depois de passar a semana pescando, fora de casa. Foi para o rádio pedir doações.
Sem hierarquias Hoje, com 348 leitores cadastrados -e um público de até80 a cada domingo-, avalia ter cerca de 8.000 volumes, entre livros, revistas, enciclopédias, dicionários, fascículos, panfletos religiosos e apostilas, todos recebidos por doação e mantidos sem hierarquias catalográficas: "A Montanha Mágica" ao lado de "Alegria de Viver para Tornar sua Vida Mais Saudável com Muito Charme".
Cada um escolhe o que quiser. Um menino de 11 anos, Marcílio Pardinho, pode sair da feira satisfeito, com "O Jardim dos Finzi-Contini", de Giorgio Bassani, debaixo do braço ("Meu primo já tinha lido. Disse que era interessante. Eu só estava esperando o livro voltar"), mas a maioria prefere ler revistas velhas e gibis. "Minha mulher adora Paulo Coelho", diz Léo do Peixe.
Há uma semana, Gildete Araújo dos Santos retirou sete livros, entre eles: "Enigma de um Amor", "Revelando o Amor", "Atração Irresistível" e "Disfarce Irresistível". "O que a mulherada mais gosta é "Sabrina" e "Júlia'", diz o pescador, fazendo alusão às séries de romances de banca de jornais. "Vou para a roça. Na roça não tem televisão", justifica Gildete, ecoando a máxima de Guimarães Rosa: "No sertão, o que pode fazer uma pessoa do seu tempo livre a não ser contar histórias?" Ou ler.
Embora estejam em pleno sertão, ou talvez por isso mesmo, poucos lêem o autor de "Grande Sertão: Veredas", romance publicado há 50 anos. "Tenho dificuldade. Acho que tem sempre alguma coisa muito grande por trás. E eu fico querendo saber o que é", diz Léo do Peixe, ao mesmo tempo em que se entusiasma com o livro de estréia de Lúcio Cardoso, "Maleita", de 1934, que ele acabou de ler e cuja história se passa em Pirapora: "Há cem anos, os caras pescavam pelados nessa cachoeira. Isso aqui era uma promiscuidade danada". Hoje, no final da tarde de domingo, os crentes vão e vêm de bicicleta, com a Bíblia na mão, pela antiga ponte de madeira e ferro, desativada há anos, que liga Pirapora a Buritizeiro sobre as corredeiras caudalosas do São Francisco.
O sertão e o rio
O sertão já não é o mesmo. Na estrada que vai de Belo Horizonte a Pirapora, entre Cordisburgo e Curvelo, homens, mulheres e crianças com pás nas mãos gritam por uma "moedinha" pelo serviço de encher de terra as crateras no asfalto, das quais os motoristas de caminhões abarrotados de sacos de carvão tentam desviar como podem.
O São Francisco também já não é o mesmo. No ano passado, a Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente) detectou a presença de metais pesados no leito do rio como causa da mortandade de peixes entre Três Marias e Pirapora (leia texto na página ao lado).
As veredas (olhos-d'água ou nascentes) também correm o risco de sumir, graças ao assoreamento.
O Clube da Leitura não tem patrocínio nem incentivo além da eventual colaboração de amigos e simpatizantes. Sobrevive da obstinação do seu idealizador. Recentemente, um vereador cedeu um trailer para abrigar a biblioteca na feira. Embora reconhecido e saudado por onde passa, Léo do Peixe garante que não tem pretensões políticas: "Já me ofereceram legenda três vezes. Tenho medo de ficar sem-vergonha". Sua paixão são os livros e os peixes. "Você acha que são só as Sheilas?", pergunta, agarrado a um surubim de21 kg , sem cabeça (o maior que já pescou pesava 66 kg , com mais de 1,80 m ).
O peixe de couro, aspecto pré-histórico e carne suculenta, vive no fundo dos rios e é um dos ícones da cidade. A antiga zona de meretrício, um casario velho e abandonado diante do São Francisco, era conhecida como Cabeça de Surubim: "Na minha infância, vinha prostituta do Brasil inteiro", diz o pescador.
Meses difíceis
Durante a piracema (desova dos peixes, entre novembro e fevereiro), a pesca é proibida. Muitos pescadores passam dificuldades, apesar do salário-defeso (equivalente a um salário mínimo) garantido por quatro meses por ano pelo Estado, e continuam a pescar, contra a lei, com suas tarrafas. São meses difíceis para Léo do Peixe. "Hoje, tem mais pescador do que peixe", diz. Obrigado a limitar as vendas ao estoque de congelados, ele tenta aproveitar a piracema para se dedicar aos livros.
Os leitores agradecidos parecem confirmar o lema do militante da leitura: "Não existe cultura inútil". Entre os 45 cadastrados na feira do último domingo, Jaquelane Reis Aguiar, 22, voltou para devolver a "Pedagogia do Oprimido", de Paulo Freire, e levar um novo livro. Escolheu "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen: "Não conheço essa escritora, mas é um tema atual, né? Quem sabe não pode servir para alguma coisa?".
Metais no rio provocam morte de peixes
Entre outubro de 2004 e setembro de 2005, cerca de 25 toneladas de peixes morreram no alto São Francisco, entre Três Marias e Pirapora, segundo a Fepesca (Federação dos Pescadores Profissionais de Mi- nas Gerais).
"Surubim é um peixe ignorante. Sempre desceu peixe morto. Por isso, não levamos logoem conta. O surubim não sabe saltar, então ele sai de dentro d'água e, com a velocidade que vem, bate com a cabeça na pedra e morre na hora", diz Léo do Peixe, explicando a demora para perceber que havia um problema no rio, causando a morte dos peixes, além da "burrice" deles.
A Feam, vinculada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente, detectou a presença de metais pesados (zinco, em especial) no leito do rio e nas vísceras dos peixes mortos, sobretudo os de águas profundas, como o surubim.
No relatório que a fundação elaborou em2005, a Votorantim Metais Zinco S.A., que fica na altura da barragem de Três Marias (cerca de 100 km de Pirapora, rio acima), aparece como uma das principais responsáveis pelo desastre ecológico. A empresa foi autuada duas vezes em 2005, pela Feam e pelo Instituto Estadual de Florestas, e está sendo processada por colônias de pescadores.
A Votorantim é a única empresa a trabalhar com zinco na região, com uma capacidade de produção anual de 180 mil toneladas. O relatório da Feam indica medidas a ser adotadas pela companhia (como "a remoção de todo o passivo ambiental de sua responsabilidade, para fins de restauração efetiva do equilíbrio do ecossistema") e recomenda o embargo da unidade de Três Marias caso isso não seja cumprido.
A Votorantim contesta o relatório. "Entramos com um pedido de revisão. Temos informações de outras instituições que ainda não chegaram a nenhuma conclusão. Nossas operações estão dentro dos padrões exigidos pela legislação", diz Ricardo Barbosa, gerente de meio ambiente da empresa. "Não atribuímos a mortandade dos peixes ao zinco." Então, qual seria a causa? "É o que precisamos descobrir", diz, citando a presença de esgotos e agrotóxicos.
A Votorantim Metais acaba de obter a renovação de sua licença, sob a condição de executar 25 ações de reparação ambiental. "A empresa está investindo na solução dos seus problemas. Os passivos estão sendo resolvidos", diz Barbosa, reconhecendo problemas "no passado".
Se "Grande Sertão: Veredas" fosse narrado hoje, é provável que Riobaldo e Diadorim não se encontrassem pela primeira vez no rio São Francisco, quando ainda eram crianças, mas num centro correcional de menores, vigiados 24 horas por dia. "Pirapora era até muito recentemente o sexto município mais violento do Estado de Minas", diz Dalva AntoniaMaria de Castro Galdino, advogada, comerciante, idealizadora e diretora do recém-inaugurado Centro Socioeducativo de Adolescentes de Pirapora, o Cesap, onde Léo do Peixe organiza uma oficina mensal de leitura.
Com 58 funcionários e capacidade para 20 internos (hoje, são dez, entre 15 e 16 anos, acomodados em celas de quatro cada uma), o Cesap é um caixote murado de cimento e arame farpado, construído a poucos quilômetros da cidade, isolado na estrada para Montes Claros.
O projeto é resultado de uma parceria entre o Estado, o município e empresários locais, todos assustados com a taxa de criminalidade da região: "Todo mundo quer saber por que eles cometem o ato infracional", diz a diretora.
Entre os internos, há quem cometeu homicídio. Alguns passaram pela cadeia pública. A idéia do centro é tentar reinserir o menor na sociedade. Além do banho de sol diário de uma hora, os adolescentes freqüentam aulas de matemática, português e inglês, cursos profissionalizantes e oficinas.
Léo do Peixe leva os livros e revistas de bicicleta. A maioria dos meninos gosta de assuntos que lhes dizem respeito diretamente, como sexo e drogas. "A gente tem que selecionar as leituras", ressalva Dalva Galdino. "Tem um que adora poesia", diz o pescador.
As situações familiares são dramáticas. "Tem menino de 15 anos que já é pai, com filho de 8 meses que ele nunca viu. E tem pai que não consegue vir visitar o filho preso. No início, ainda permitíamos que levassem livros para as celas, até que um adolescente tentou passar uma coisa para outro, dentro da Bíblia. A gente percebeu e retirou os livros. Ele mandava o outro ler um determinado salmo. Era um recado", diz a diretora. "Outro dia, um menino gritou para mim no meio da rua. Era um deles, que tinha sido solto", diz Léo do Peixe, sem disfarçar a felicidade.
Livros concorrem com revistas e gibis
Halexya Rodrigues Bavosa Pedais, 7, defende com altivez de rainha o título de primeira leitora da biblioteca ambulante que o pescador Leonardo da Piedade Diniz Filho, mais conhecido como Léo do Peixe, mantém desde fevereiro na feira livre de domingo, em Pirapora, no sertão mineiro, às margens do rio São Francisco.
"Com "h" e "y'", corrige Halexya, de botinha de plástico e minissaia. "Comecei lendo revistinha. Depois, passei para literatura mesmo: "A Odisséia" e "Pluft, o Fantasminha'", diz. Em março, a professora
Um mês depois, procurou Léo do Peixe e o encorajou a se inscrever no prêmio Viva Leitura, promovido no Brasil pela Fundação Santillana, maior grupo editorial espanhol, ao qual pertencem as editoras Objetiva e Moderna. Dos 3.000 projetos inscritos, a barraca do Clube da Leitura ficou entre os cinco finalistas na categoria pessoa física (o vencedor foi um projeto de leitura para presidiárias em Porto Alegre).
Casado, pai de um menino de sete anos e de uma menina de quatro, pescador há 17 anos e profissional há cinco, Léo do Peixe, 40, inaugurou o Clube da Leitura com cem livros, motivado, em parte, pela perspectiva de ficar perto dos filhos, que poderiam se entreter enquanto o pai estivesse vendendo peixes na feira, aos domingos, depois de passar a semana pescando, fora de casa. Foi para o rádio pedir doações.
Sem hierarquias Hoje, com 348 leitores cadastrados -e um público de até
Cada um escolhe o que quiser. Um menino de 11 anos, Marcílio Pardinho, pode sair da feira satisfeito, com "O Jardim dos Finzi-Contini", de Giorgio Bassani, debaixo do braço ("Meu primo já tinha lido. Disse que era interessante. Eu só estava esperando o livro voltar"), mas a maioria prefere ler revistas velhas e gibis. "Minha mulher adora Paulo Coelho", diz Léo do Peixe.
Há uma semana, Gildete Araújo dos Santos retirou sete livros, entre eles: "Enigma de um Amor", "Revelando o Amor", "Atração Irresistível" e "Disfarce Irresistível". "O que a mulherada mais gosta é "Sabrina" e "Júlia'", diz o pescador, fazendo alusão às séries de romances de banca de jornais. "Vou para a roça. Na roça não tem televisão", justifica Gildete, ecoando a máxima de Guimarães Rosa: "No sertão, o que pode fazer uma pessoa do seu tempo livre a não ser contar histórias?" Ou ler.
Embora estejam em pleno sertão, ou talvez por isso mesmo, poucos lêem o autor de "Grande Sertão: Veredas", romance publicado há 50 anos. "Tenho dificuldade. Acho que tem sempre alguma coisa muito grande por trás. E eu fico querendo saber o que é", diz Léo do Peixe, ao mesmo tempo em que se entusiasma com o livro de estréia de Lúcio Cardoso, "Maleita", de 1934, que ele acabou de ler e cuja história se passa em Pirapora: "Há cem anos, os caras pescavam pelados nessa cachoeira. Isso aqui era uma promiscuidade danada". Hoje, no final da tarde de domingo, os crentes vão e vêm de bicicleta, com a Bíblia na mão, pela antiga ponte de madeira e ferro, desativada há anos, que liga Pirapora a Buritizeiro sobre as corredeiras caudalosas do São Francisco.
O sertão e o rio
O sertão já não é o mesmo. Na estrada que vai de Belo Horizonte a Pirapora, entre Cordisburgo e Curvelo, homens, mulheres e crianças com pás nas mãos gritam por uma "moedinha" pelo serviço de encher de terra as crateras no asfalto, das quais os motoristas de caminhões abarrotados de sacos de carvão tentam desviar como podem.
O São Francisco também já não é o mesmo. No ano passado, a Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente) detectou a presença de metais pesados no leito do rio como causa da mortandade de peixes entre Três Marias e Pirapora (leia texto na página ao lado).
As veredas (olhos-d'água ou nascentes) também correm o risco de sumir, graças ao assoreamento.
O Clube da Leitura não tem patrocínio nem incentivo além da eventual colaboração de amigos e simpatizantes. Sobrevive da obstinação do seu idealizador. Recentemente, um vereador cedeu um trailer para abrigar a biblioteca na feira. Embora reconhecido e saudado por onde passa, Léo do Peixe garante que não tem pretensões políticas: "Já me ofereceram legenda três vezes. Tenho medo de ficar sem-vergonha". Sua paixão são os livros e os peixes. "Você acha que são só as Sheilas?", pergunta, agarrado a um surubim de
O peixe de couro, aspecto pré-histórico e carne suculenta, vive no fundo dos rios e é um dos ícones da cidade. A antiga zona de meretrício, um casario velho e abandonado diante do São Francisco, era conhecida como Cabeça de Surubim: "Na minha infância, vinha prostituta do Brasil inteiro", diz o pescador.
Meses difíceis
Durante a piracema (desova dos peixes, entre novembro e fevereiro), a pesca é proibida. Muitos pescadores passam dificuldades, apesar do salário-defeso (equivalente a um salário mínimo) garantido por quatro meses por ano pelo Estado, e continuam a pescar, contra a lei, com suas tarrafas. São meses difíceis para Léo do Peixe. "Hoje, tem mais pescador do que peixe", diz. Obrigado a limitar as vendas ao estoque de congelados, ele tenta aproveitar a piracema para se dedicar aos livros.
Os leitores agradecidos parecem confirmar o lema do militante da leitura: "Não existe cultura inútil". Entre os 45 cadastrados na feira do último domingo, Jaquelane Reis Aguiar, 22, voltou para devolver a "Pedagogia do Oprimido", de Paulo Freire, e levar um novo livro. Escolheu "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen: "Não conheço essa escritora, mas é um tema atual, né? Quem sabe não pode servir para alguma coisa?".
Metais no rio provocam morte de peixes
Entre outubro de 2004 e setembro de 2005, cerca de 25 toneladas de peixes morreram no alto São Francisco, entre Três Marias e Pirapora, segundo a Fepesca (Federação dos Pescadores Profissionais de Mi- nas Gerais).
"Surubim é um peixe ignorante. Sempre desceu peixe morto. Por isso, não levamos logo
A Feam, vinculada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente, detectou a presença de metais pesados (zinco, em especial) no leito do rio e nas vísceras dos peixes mortos, sobretudo os de águas profundas, como o surubim.
No relatório que a fundação elaborou em
A Votorantim é a única empresa a trabalhar com zinco na região, com uma capacidade de produção anual de 180 mil toneladas. O relatório da Feam indica medidas a ser adotadas pela companhia (como "a remoção de todo o passivo ambiental de sua responsabilidade, para fins de restauração efetiva do equilíbrio do ecossistema") e recomenda o embargo da unidade de Três Marias caso isso não seja cumprido.
A Votorantim contesta o relatório. "Entramos com um pedido de revisão. Temos informações de outras instituições que ainda não chegaram a nenhuma conclusão. Nossas operações estão dentro dos padrões exigidos pela legislação", diz Ricardo Barbosa, gerente de meio ambiente da empresa. "Não atribuímos a mortandade dos peixes ao zinco." Então, qual seria a causa? "É o que precisamos descobrir", diz, citando a presença de esgotos e agrotóxicos.
A Votorantim Metais acaba de obter a renovação de sua licença, sob a condição de executar 25 ações de reparação ambiental. "A empresa está investindo na solução dos seus problemas. Os passivos estão sendo resolvidos", diz Barbosa, reconhecendo problemas "no passado".
Se "Grande Sertão: Veredas" fosse narrado hoje, é provável que Riobaldo e Diadorim não se encontrassem pela primeira vez no rio São Francisco, quando ainda eram crianças, mas num centro correcional de menores, vigiados 24 horas por dia. "Pirapora era até muito recentemente o sexto município mais violento do Estado de Minas", diz Dalva Antonia
Com 58 funcionários e capacidade para 20 internos (hoje, são dez, entre 15 e 16 anos, acomodados em celas de quatro cada uma), o Cesap é um caixote murado de cimento e arame farpado, construído a poucos quilômetros da cidade, isolado na estrada para Montes Claros.
O projeto é resultado de uma parceria entre o Estado, o município e empresários locais, todos assustados com a taxa de criminalidade da região: "Todo mundo quer saber por que eles cometem o ato infracional", diz a diretora.
Entre os internos, há quem cometeu homicídio. Alguns passaram pela cadeia pública. A idéia do centro é tentar reinserir o menor na sociedade. Além do banho de sol diário de uma hora, os adolescentes freqüentam aulas de matemática, português e inglês, cursos profissionalizantes e oficinas.
Léo do Peixe leva os livros e revistas de bicicleta. A maioria dos meninos gosta de assuntos que lhes dizem respeito diretamente, como sexo e drogas. "A gente tem que selecionar as leituras", ressalva Dalva Galdino. "Tem um que adora poesia", diz o pescador.
As situações familiares são dramáticas. "Tem menino de 15 anos que já é pai, com filho de 8 meses que ele nunca viu. E tem pai que não consegue vir visitar o filho preso. No início, ainda permitíamos que levassem livros para as celas, até que um adolescente tentou passar uma coisa para outro, dentro da Bíblia. A gente percebeu e retirou os livros. Ele mandava o outro ler um determinado salmo. Era um recado", diz a diretora. "Outro dia, um menino gritou para mim no meio da rua. Era um deles, que tinha sido solto", diz Léo do Peixe, sem disfarçar a felicidade.
Fonte: www.blogdogaleno.com.br (17/06/2012 - 3h25)

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