setembro 5, 2008
01 | 05 | 2000
Por que a escola não serve pra (quase) nada
Por Gustavo Ioschpe
Sempre me intrigou o fato de que os melhores alunos terminam
não repetindo o sucesso escolar vida afora e, ao mesmo tempo, que as pessoas de
grande êxito em suas atividades foram, frequentemente, maus alunos, ou pelo
menos nada brilhantes. Não são inquietações que me surgiram agora, mas já na
época de estudante.
Nessa mesma época, de estudante secundário, comecei a sentir
um profundo incômodo com a vida estudantil. Quando criança, tinha muito prazer
em ir ao colégio, em aprender aquelas coisas novas todo dia, em resolver
mistérios. A educação é o mecanismo de inserção mais poderoso que há: com ela,
penetramos no mundo e nos sentimos participantes da nossa realidade. A grande
parede de ignorância que nos barra da compreensão do universo vai aos poucos
sendo derrubada.
Mas, em um certo momento, lá pelo fim do primeiro grau, o
encantamento se quebrou. Não sei se eu é que perdi a ingenuidade, ou se foi a
escola que mudou, mas ficou tudo esquemático, mecânico e completamente
broxante. A relação com o professor, que antes era de companheirismo e
admiração nessa viagem de descobrimento, virou burocrática e antagonística.
Pairava no ar o reconhecimento mútuo de que entrávamos em um teatro, onde
mestres e pupilos eram atores secundários e o papel principal ficava a cargo da
mediocridade, a se infiltrar e dominar tudo. Ela ditava que o nosso papel ali
era de fingidores: o professor fingia estar ensinando e se interessando pela
inteligência de seus alunos, e o aluno fingia estar aprendendo e absorvendo
conhecimentos que lhe seriam úteis.
No fundo, todos sabiam que grande parte do que se ensinava
ali era inútil e desinteressante, mas, enfim, caía no vestibular, então o que é
que se havia de fazer, né?
Assim, passei, como todos os meus colegas, anos e anos
regurgitando o que diziam os livrinhos que os professores nos indicavam. Líamos
grandes livros, falávamos sobre grandes personagens históricos, mas o que
ficava eram perguntas sobre o enredo, pedidos de descrição de eventos e causas.
Nenhuma elucubração, nenhum desejo de ir além do texto, nenhuma tentativa,
enfim, de pensar e imaginar. Qualquer tentativa de dizer algo diferente ou
pensar o proibido era (e continua sendo) punida com canetaços vermelhos e notas
baixas ou, em casos mais severos, conversinhas com orientadores pedagógicos e
coordenadores educacionais (nomes infames para cargos que se resumem aos de
carcerários do presídio de almas que é a escola moderna).
Assim, o sistema educacional transformou-se numa máquina
produtora de mediocridade e resignação, que vai aos poucos filtrando os
inconformistas e deixando-os de lado, rotulando-os como “problemáticos”.
Matando o espírito questionador, já que qualquer pergunta desafiadora é vista
como um desafio à autoridade. Por isso é que os bons alunos não raro têm vida
escolar apagada, e os maus alunos se saem bem: fora das paredes da escola, o
espírito crítico, a imaginação e a vontade de fazer diferente são fatores
indispensáveis ao sucesso.
O que só comprova a impressão de que colégios viraram
exatamente aquilo que foram criados para combater: templos da gratificação da
mediocridade e da mesquinharia; fortalezas que massacram aquilo que há de
espontâneo nos jovens, e os “preparam para a vida”, dando-lhes a garantia de
sobrevivência que é, ao mesmo tempo, a garantia de uma vida sem saltos, voltas,
dúvidas, explosões, entusiasmos, descobertas, angústias e fascínios. Tudo,
enfim, que faz com que a vida valha a pena.
P.S. Antes que o tradicional espírito de porco pergunte se
me imagino um gênio incompreendido, confesso que passei minha temporada escolar
perseguindo notas altas e me empenhando em ser o melhor da classe, mesmo
sabendo a falência moral que isso significava. O que só me entristece e
envergonha.
Fonte: Eu e o Pop textos
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