terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Show do Eu


DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.10   n.5 out/09                   RECENSÕES 

1) O Show do Eu
Autor: Paula Sibilia
Editora: Nova Fronteira
ISBN: 9788520921296
Origem: Nacional
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 288. 

O show do eu - a intimidade como espetáculo, originalmente uma bem-sucedida tese de doutorado, é o resultado da primorosa pesquisa bibliográfica da professora argentina Paula Sibilia. Neste livro, a autora nos mostra de que maneira cresceu o interesse da sociedade do espetáculo pela privacidade de famosos e pessoas comuns, através de veículos como biografias, blogs na internet e reality shows na televisão, traçando diálogos entre os grandes pensadores contemporâneos da individualidade. O que essas pessoas tão parecidas conosco tem a dizer de original? É ler para descobrir.

O livro procura compreender os sentidos de um fenômeno que acontece em anos recentes: a exposição pública da vida privada e da intimidade dos usuários da Internet através de dispositivos como webcams, blogs, fotologs, videologs, Orkut, Facebook e YouTube. Com seu estatuto ambíguo entre o público e o privado, a ficção e a realidade, a vida e a obra, estes espetáculos do eu exibidos na Web estão registrando um comportamento atual. As novas modalidades de expressão e comunicação permitem a pratica uma “escrita de si” sempre em construção de eu de tela catódia.

Outro fator que contribui para a espetacularização do eu e da própria vida com recursos performáticos de uma interpretação escondida pela vivência sem presença do ciberespaço. Estes elementos assinalam importantes transformações nos modos de produção e consumo nas sociedades ocidentais contemporâneas, um processo intenso e complexo que ainda está se delineando, embora já tenha dado a luz a formas subjetivas que se distanciam dos modos tipicamente modernos de ser e estar no mundo.

De acordo com a pesquisadora Paula Sibilia, os modos de construção do “eu” e os alicerces em cima dos quais se sustentam esse edifício mudaram pela necessidade de tornar público algo que deveria ser privado. Leia o pensar do livro em suas palavras:

“A intimidade tem se convertido numa espécie de cenário no qual devemos montar o espetáculo de nós mesmos”, constata Paula Sibilia. Com a revolução tecnológica da informação, o proliferamento da internet, o aumento de blogs e sites de relacionamento, o significado de intimidade mudou radicalmente, criando uma vida espetacularizada.

Paula diz que as novas tecnologias correspondem também a um novo modelo de vida social, e que “usamos essas ferramentas para responder às demandas de um universo cada vez mais distante daquela cultura oitocentista que incentiva a escrever diários verdadeiramente ‘íntimos’”. 

Nessa nova perspectiva, a vida e as relações ganham um novo sentido e a pessoa só existe se aparece para alguém. “Uma das principais manifestações dessa virada é um crescente desejo de ser visto, uma vontade de se construir como um eu visível, como um personagem que os outros podem ver e, graças a esse olhar reconfortante, confirmam a existência de quem se exibe”. 

Assim, o homem moderno tem uma personalidade alterdirigida ou orientada para o olhar dos outros. “Isto não acontece apenas na Internet, é claro, mas nas diversas práticas contemporâneas onde impera esse desejo desesperado de que os demais nos enxerguem e nos observem para que possamos existir”, explica.

Maria Paula Sibilia é graduada em Ciências da Comunicação, pela Universidade de Buenos Aires (UBA), mestre na mesma área, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e doutora em Saúde Coletiva, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professora no Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autora,também, de O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002).

A inquietação inicial, que motivou a escrita deste livro foi o surgimento dos blogs. Ou seja, esses “diários íntimos” que de repente começaram a ser publicados na internet. A pergunta era a seguinte: até que ponto e em que sentido eles podiam ser considerados íntimos, se eram expostos tão publicamente na web?

Então, achei que se tratava de sintomas de uma nova época: todas essas novidades eram sinais de que algo tinha mudado radicalmente no que entendemos por intimidade, bem como no que é público e no que é privado hoje em dia. Tendo a afirmar que se trata de um fenômeno bem mais amplo: usamos essas ferramentas para responder às demandas de um novo tipo de sociedade.

Uma das principais manifestações dessa virada é um crescente desejo de ser visto, uma vontade de se construir como um eu visível, como um personagem que os outros podem ver e, graças a esse olhar reconfortante, confirmam a existência de quem se exibe. No mundo contemporâneo estão se transformando os modos em que se constrói esse eu que fala e que se mostra sem pausa, justamente porque necessita se exibir para ser alguém.

O que se procura, nessas novas práticas “exibicionistas” e “confessionais” não é mergulhar no mais obscuro de si mesmo para ter acesso às próprias verdades, como acontecia na escrita do diário íntimo tradicional ou no relato vital da psicanálise. Agora se persegue a visibilidade e, em certo sentido, também a celebridade.

A intimidade tem se convertido numa espécie de cenário no qual devemos montar o espetáculo de nós mesmos: a vitrine da própria personalidade. E esse show do eu tem que ser visível. É necessário se construir como uma subjetividade visível para que o olhar alheio possa confirmar que existimos. O importante é que cada indivíduo seja capaz de produzir um personagem visível para se mostrar e se vender, e que os outros se ocupem de confirmá-lo com seu olhar. Por isso, estas novas práticas denotam a configuração de novos tipos de subjetividades.

O mundo contemporâneo não solicita introspecção, mas ele pede aos gritos visibilidade, celebridade, habilidades comunicativas e marketing de si mesmo. Por isso, cada um deve aprender a se administrar como uma empresa, posicionando sua marca no mercado das aparências. E essas ferramentas de exposição multimídia e interativas nos ajudam a consegui-lo, além de nos capacitar para termos sucesso nessas arenas.
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Informações organizadas por Aldo de Albuquerque Barreto,  a partir do livro da autora e de fragmentos de sua entrevista à IHU On-Line. <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?ption=com_tema_capa&Itemid=23&task=detalhe&id=1057

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